quinta-feira, 29 de março de 2012

Texto de Apoio - 3ªs séries - ETEC JOSÉ ROCHA MENDES E EXTENSÃO E. E. AMADEU AMARAL

BRASIL SÉCULO XIX: DA INDEPENDÊNCIA AO FIM DO IMPÉRIO

   A luta abolicionista marcou o século XIX após a emancipação. De um lado, pessoas interessadas na libertação de seres humanos e em restituir-lhes a dignidade. De outro, os interesses político-econômicos de setores da aristocracia rural e de setores médios da população urbana. Interesses diferenciados que se uniram para acabar com a escravidão no Brasil. Além destes, assinala-se o interesse britânico em que isso acontecesse.

    Até o século XVIII, os britânicos eram responsáveis pelo tráfico de escravos para a América. Com o desenvolvimento industrial iniciado na segunda metade desse mesmo século, o tráfico de escravos tornou-se um empecilho ao pleno desenvolvimento do capitalismo industrial e liberal. Ora, era mais interessante que os africanos permanecessem em seu continente trabalhando na produção de matérias-primas, na extração de ouro, enfim, produzindo aquilo que era necessário aos interesses econômicos da burguesia inglesa. Além disso, era necessário aumentar o mercado consumidor para os produtos industrializados nos países que se formavam na América Latina, como o Brasil.

    A pressão começara com os tratados assinados quando do domínio português sobre o Brasil, que acertara o fim do tráfico ao norte do Equador a partir de 1815. Quando da emancipação, em 1822, o governo brasileiro passou a ser pressionado para por fim ao tráfico, condicionando assim, o reconhecimento do Brasil como país independente. Em 1831, como estava acertado nos tratados de 1827, uma lei foi aprovada, mas permaneceu “letra morta”, uma lei “para inglês ver”.

    A persistência do tráfico deveu-se à expansão do café. Com o aumento das pressões britânicas, principalmente depois do Bill Aberdeen, 1845, que garantia à marinha de guerra britânica ações contra os “tumbeiros”, como eram chamados os navios negreiros, considerando-os piratas, o governo brasileiro cedeu e proibiu o tráfico em 1850 quando a Lei Eusébio de Queiroz foi aprovada. Eis alguns trechos dessa lei[1]:

         Dom Pedro por graça de Deus, e Unânime Aclamaçao dos Povos, Imperador Constitucional e defensor Perpétuo do Brasil: Fazemos saber a todos os nossos súditos, que a Assembléia Geral decretou, e Nós queremos a Lei seguinte:
         Art. 1º As embarcações brasileiras encontradas em qualquer parte, e as estrangeiras nos portos, enseadas, ancoradouros, ou mares territoriais do Brasil, tendo a seu bordo escravos, cuja importação é proibida pela Lei de 07.11.18331, ou havendo-os desembarcado, serão apreendidas pelas Autoridades, ou pelos navios de guerra brasileiros, e consideradas em tentativa de importação de escravos.
         (...)
         Art. 4º A importação de escravos no território do Império fica nele considerada como pirataria, e será punida pelos seus Tribunais com as penas declaradas no Art. 2º da Lei de 07.11.18331. a tentativa e a cumplicidade serão punidas segundo as regras dos arts. 34º e 35º do Código criminal.
         (...)
         Art. 6º Todos os escravos que forem apreendidos serão reesportados por conta do Estado para os portos de onde tiverem vindo, ou para qualquer outro ponto fora do Império, que mais conveniente parecer ao Governo; e enquanto essa reexportação se não verificar, serão empregados em trabalho debaixo da tutela do Governo, não sendo em caso algum concedidos os seus serviços a particulares.
    Apesar disso, o contrabando de escravos continuava. Em 1854 foi aprovada a Lei Nabuco de Araújo, que estipulava várias sanções às autoridades que permitissem o contrabando de escravos. Ao mesmo tempo, é curioso, cafeicultores da região de Vassouras, reuniram-se para discutir para evitar a falta de força de trabalho e possíveis revoltas de escravos; para eles, era necessário estabelecer outros mecanismos de repressão e controle sobre os escravos, como revela o seguinte documento:
(...) os fazendeiros (...) devem permitir e mesmo promover divertimentos entre os escravos. (...) Os africanos, em geral, são apaixonadíssimos de certos divertimentos: impedir-lhos é reduzi-los ao desespero, o mais perigoso dos conselheiros. Quem se diverte não conspira. (...) Permitir que os escravos tenham roça e se liguem ao solo pelo amor a propriedade. O escravo que possui nem foge nem faz desordem.[2]
    A questão que mais preocupou os latifundiários foi o de manter o fornecimento de trabalhadores para a lavoura cafeeira em expansão. O tráfico interno, de regiões em decadência como o nordeste, pôde diminuir muito pouco a falta de trabalhadores, que só foi solucionada com a utilização cada vez maior do trabalhador livre imigrante europeu.

    O fim do tráfico constituiu-se um incentivo para a luta abolicionista. A campanha passou a ser mais incisiva pela imprensa e entre os próprios escravos. Setores médios da população urbana, engajados na luta abolicionista, tomaram como essencial a abolição definitiva da escravidão como condição para  a modernização do país.

    A tática do silêncio por parte do governo e da elite escravocrata era uma resposta diante das pressões britânicas e da opinião pública internacional. Ora, os latifundiários dependiam dos escravos para manterem subprodução. Mesmo os cafeicultores do Oeste Paulista, mais atentos à mudanças, com uma mentalidade empresarial maior e que até tinham feito experiências com o trabalho livre, mantinham-se conservadores em relação à questão escravista.

    Somente quando as pressões abolicionistas aumentaram, a partir de 1870, o medo da desorganização da produção pelas fugas de escravos e a subvenção da imigração por parte do Estado, esses cafeicultores começaram a modificar sua posição em relação à escravidão, já que 62% dos escravos concentravam-se nas áreas produtoras de café (São Paulo, Rio de Janeiro).

    A situação internacional apresentava mudanças substanciais em relação à escravidão: somente Cuba e Porto Rico, além do Brasil, mantinham essa forma de trabalho nos anos de 1870.

    O governo brasileiro tentava apaziguar os ânimos abolicionistas nacionais e internacionais, aprovando leis paliativas, como a lei do Ventre Livre, ou lei Rio Branco (por causa do Visconde de Rio Branco, chefe do Gabinete de Ministros), em 1871. A imprensa já havia colocado em discussão o assunto antes da lei ser aprovada. A imprensa, por sinal, foi fundamental para expressar a opinião dos abolicionistas, abrindo o debate público e ajudando a formar a opinião pública contra a instituição escravista.

    A lei aprovada em 29 de setembro de 1871, com a maioria dos votos de deputados do norte e nordeste, cuja economia decadente, pouco dependia dos trabalhadores escravos, enquanto os cafeicultores do centro sul, em sua maioria, votaram contra a lei. Os filhos de escravos ficariam com as mães até os 8 anos, isto é, os nascidos a partir de 1871. Depois eles poderiam ser entregues ao Estado, mediante indenização, ou permanecer com o dono de sua mãe, como “nascidos livres” até os 21 anos, prestando serviços em troca de seu sustento, o que era mais comum. Na prática houve uma persistência da escravidão, uma vitória dos escravistas. Os resultados práticos foram poucos: apenas 1503 negros foram libertados de mais de um milhão e meio existentes.

    Nos anos 1880, o movimento abolicionista ganhou dimensão nacional com a fundação de sociedades e associações abolicionistas, criando condições para a formação de uma Confederação Abolicionista em 1883. A participação de setores urbanos se amplia, o que já acontecia desde de 1850 com poetas (Castro Alves, por exemplo), jornalistas, profissionais liberais, como José do Patrocínio, André Rebouças e Antonio Bento, organizador do grupo das “Caifazes”. Estes promoviam e apoiavam fugas de escravos, que continuavam a resistir à escravidão, podendo a qualquer momento promover uma rebelião de grandes proporções.

    No Nordeste a campanha avançava rápido, resultando entre 1882 e 1884 na libertação de todos os escravos no Ceará, que transformou-se em refúgio para os escravos que buscavam a liberdade.

    Ao mesmo tempo, o número de escravos diminuía em relação à expansão da produção cafeeira e a imigração européia aumentava, apesar dos resultados incertos.

    Diante disso, os abolicionistas passaram a atuar de maneira mais intensa. Joaquim Nabuco propôs em 1880 (24 de agosto) uma lei extinguindo a escravidão. Os debates aumentaram e pressionaram o governo imperial. Sua reação veio com a Lei Saraiva-Cotegipe, a lei dos Sexagenários, em 28 de setembro de 1885, que libertava os escravos que tivessem atingido os 60 anos de idade, servindo até os 65 como forma de indenização aos proprietários. Mais uma lei que tentava apaziguar os abolicionista e não desagradar os escravocratas.

    Era nítida, porém, a divisão entre as elites agrárias. No norte e nordeste, algumas províncias aboliram a escravidão. Em São Paulo há fugas em massa rumo aos quilombos, o mais famoso, o de Jabaquara. E nas cidades a libertação torna-se corriqueira. O exército, nesse momento, recusava-se a servir de caçador de escravos fugitivos.

    As pressões crescentes levaram o governo imperial à abolição no dia 13 de maio de 1888, a Lei Áurea. Contudo, essa lei previa não a abolição definitiva, mas a abolição por 100 anos. Na realidade, a escravidão, legalmente, terminou apenas com a promulgação da constituição de 1988!

    Alcançada a libertação - no Brasil em 1888 -, porém, não houve mudança da imagem em relação ao negro. Ora, a sociedade não estava preparada para receber esse novo contingente de pessoas livres e absorvê-los no mercado de trabalho de forma completa. Ou ainda, mudar seu conceito, ou melhor, seu preconceito em relação a eles. Muito menos os escravos tinham sido preparados para assumir novas funções. Os abolicionistas não se preocuparam em colocar em discussão sobre o que fariam todos os escravos depois de livres nas sociedades recém tornadas independentes. O resultado imediato foi a marginalização do ex-escravo.

   e. O Movimento Republicano ganha fôlego a partir de 1870 com o lançamento d o Manifesto e a fundação do Partido Republicano. O discurso federativo era adequado aos anseios dos setores sociais ligados aos empreendimentos cafeeiros do Oeste de São Paulo e da população urbana. E, ainda, atraía a atenção de setores das forças armadas, especialmente do Exército, que passaram a perceber a possibilidade de ter atendidas sua reivindicações  de modernização do país.

    f. O término da Guerra do Paraguai (1865-1870): “O envolvimento da cúpula militar com os ideais republicanos, divulgados na Academia Militar por Benjamin Constant, dentre outros, demonstra o grau de desgaste do Exército com o regime imperial. Este, era acusado pelos militares de descaso para com a instituição e de não ser capaz de operar as grandes transformações necessárias à modernização do país. Assim, compreende-se a aproximação dos meios militares com a aristocracia [adaptação nossa] cafeeira paulista.” Ressalte-se a influência do positivismo, amplamente divulgado entre os jovens oficiais da Academia pelo mesmo Benjamin Constant, entre outros, e o contato intenso que os oficiais tiveram com oficiais formados na tradição republicana na Argentina e no Uruguai.

    É preciso ter claro que nem todos os republicanos caminhavam com um mesmo projeto de república para o Brasil. Havia uma convergência de interesses no momento: substituir o governo monárquico, estender a participação política (em termos) e modernizar o país para que pudesse concorrer com os demais países industrializados.

    As primeiras diferenças encontram-se entre os militares – majoritariamente positivistas – e os civis – federalistas, com certeza, mas sem uma definição ideológica única. Entre estes, pode-se distinguir entre os evolucionistas, objetivos e os revolucionários ou idealistas.

    Os evolucionistas (ou evolucionários) eram contra a possibilidade de participação ampla das camadas populares – o perigo de revolta social que pudesse ameaçar o conforto e o poder das aristocracias rondava as mentes desses republicanos.  Entre eles muitos eram adeptos do positivismo e entendiam que a evolução, baseada em princípios científicos, levaria a sociedade à República, sem revolução, sem tumulto, sem “anarquia”, mesmo que houvesse a necessidade da imposição de uma ditadura liderada pelos militares. O Estado forte deveria ser o promotor do progresso e o mantenedor da ordem. A maioria pertencia aos quadros do Exército e acreditavam que somente essa instituição poderia estabelecer a “Ordem” e o “Progresso”.  Representam esse núcleo Benjamin Constant, Miguel Lemos , Teixeira Mendes e Quintino Bocaiúva.

    Outro grupo, muito próximo deste e confundido com ele, era o dos republicanos objetivos favoráveis a uma república liberal e oligárquica liderada pela aristocracia, principalmente cafeeira. Para eles a participação popular deveria ser limitada segundo normas estabelecidas, evitando também a possibilidade de uma revolta popular ou o acesso à máquina do Estado.  A inspiração liberal estava presente na proposta de um federalismo que garantisse a autonomia das regiões constituintes do país.  O Estado deveria garantir os interesses individuais, garantindo os direitos mínimos de cada um.  Formavam esse grupo os cafeicultores paulistas e outros grupos das aristocracias regionais. Representam esse grupo Prudente de Morais e Campos Salles.

    O grupo dos revolucionários era influenciado pelo jacobinismo, herdeiro do pensamento desenvolvido pelos jacobinos ao longo do processo revolucionário francês no século XVIII. Eram favoráveis a uma república popular com ampla participação e defendiam até a luta armada, se fosse necessária, para alcançar o poder. Mesmo assim, defenderam o governo centralista do Marechal Floriano Peixoto e beirou a uma ditadura. Esse grupo era formado majoritariamente por setores urbanos, como pequenos funcionários de repartições públicas, de casas comerciais e bancarias, jornalistas, médicos, advogados. Representavam esse grupo Silva Jardim e Lopes Trovão.

    Diante da incapacidade do governo imperial em atender a todos os interesses, civis e militares promoveram o golpe de 15 de novembro de 1889, no Campo de Santana, proclamando o fim do regime monárquico e o inicio da republica brasileira. “O povo assistiu, bestializado, à Proclamação da República”, disse Aristides Lobo diante da indiferença e desinformação popular naquela manhã de 15 de novembro.





[1] “Lei nº 581, de 4 de setembro de 1850. Estabelece medidas para a repressão do tráfico de africanos neste Império”. Coleção das leis do Império do Brasil. Rio de Janeiro, Tip. Nacional, 1886. Tomo 11, Parte 1ª, Secção 35ª, pp. 267. Apud Maria de Fátima Rodrigues das Neves – Op. Cit., pp. 84-85.
[2] Apud Jorge Pinto Fastos vassourenses. Vassouras, 1935, p 32. Cit. In: Mattos ,Ilmar de R e  Gonçalves ,Márcia de A.– O Império da boa sociedade: a consolidação do Estado imperial brasileiro. 4.ª ed., São Paulo, Atual Editora, 1995, p 83.
Textos de Apoio para as 2ªs séries - ETEC JOSÈ ROCHA MENDES e EXTENSÂO E.E. AMADEU AMARAL

 

 SOCIEDADE NA MODERNIDADE – SÉCULOS XIV-XVII


PENSAR, VER, CRER: AS MUDANÇAS CULTURAIS DA MODERNIDADE

HUMANISMO E RENASCIMENTO
    A visão de mundo (e do mundo e do homem) passou a se alargar com a intensificação dos contatos entre os europeus e sábios orientais e gregos já com as Cruzadas nos séculos XII e XIII. Após o século XV, a expansão dos turcos otomanos – outro povo recém-convertido ao islamismo – fez com que muitos estudiosos bizantinos (da atual Turquia e  de países dos Balcãs) fugissem em direção à Península Itálica.
    O contato propiciou a ampliação do horizonte do conhecimento, visto que muitas obras, antes desconhecidas, passaram a estar ao alcance de estudiosos das universidades e colégios da Europa Ocidental. A partir desse momento, passou-se a realizar uma crítica profunda das obras que chegavam a suas mãos e a procurar ampliar o que havia sido acumulado de conhecimento.
    Os mercadores foram responsáveis por boa parte da expansão desse horizonte de conhecimento. Sua ânsia de conhecer visando o enriquecimento, permitia ousar ir além do que estava a seu alcance. No século XIII, podemos tomar como exemplo as viagens de Marco Polo. Natural de Veneza, partiu com o seu pai e seu tio para uma viagem longa com destino à China, dominada pelos mongóis de Kublai Kan. O relato[1] que fez de suas viagens – até lá e pelo próprio Império Mongol – mostram um misto de curiosidade por conhecer mais e de desejo de enriquecer.
    A atividade mercantil questionava, de certa forma, a ideia de que a felicidade só seria alcançada depois da morte, no Paraíso, se o homem acatasse as leis divinas. Os mercadores estavam alcançando a felicidade, pelos menos do ponto de vista material com seu enriquecimento, no mundo terreno. Esse questionamento causou impacto nos estudiosos, principalmente nos centros urbanos, que passaram a pensar no homem como passível de buscar a felicidade enquanto vivesse respeitando a moral católica.
    Formava-se o Humanismo: um conjunto de ideias sobre o homem e o que ele poderia realizar através do estudo atento, aprofundado de tudo o quanto pudesse alcançar. Mudava-se a percepção do homem e do mundo. O homem passou a ser colocado no centro de todas as preocupações, o antropocentrismo, em oposição ao teocentrismo predominante na Idade Média.
    Não significava deixar Deus em segundo plano, mas colocar o homem em evidência buscando o conhecimento fora do campo da fé. Se “Deus criou o homem a sua imagem e semelhança”, como se apresenta no escritos sagrados, então o homem seria a criatura mais perfeita criada por Deus, pois este é perfeito. Sendo assim, o que existe no mundo fora criado em função do homem, que deveria conhecer a tudo isso para poder utilizá-lo e procurar ser perfeito.
   A cultura e ... a arte apresentavam as maneiras , as possibilidades de realização do ser humano: conhecer, revelar o mundo e o homem, alcançar a perfeição e a felicidade.
  Como diria um escritor francês do século XVI, François Rabelais, “Deixe-me ver em você um abismo de conhecimento”.
    O homem se destaca, destrona o seu Deus como o centro de tudo, mas não o relega.  Suas criações buscam alcançar Deus.
    Isso se revela na literatura, no teatro, nas artes plásticas, na arquitetura, na atividade corriqueira do homem, na filosofia. Shakespeare apresenta-nos um pouco da “nova” visão sobre o homem na fala de Macbeth[2]: Atrevo-me àquilo a que pode atrever-se um homem; quem a mais se atreve, não o é.
    Ao se distanciar do campo da fé, os estudiosos humanistas se apegaram à razão, isto é, a fé não conseguiria explicar tudo o que existe materialmente, devendo-se buscar meios de conhecer com mais exatidão. O racionalismo passa a ser uma das características básicas do Humanismo e do desenvolvimento posterior que lançou as bases da ciência moderna. Tal caminho consistiu em crítica, um desafio, à cultura dominante.
    Os procedimentos diante da natureza e do homem são modificados, observar, experimentar, pesquisar, interpretar, que influenciou não só a produção do conhecimento como também a produção/criação artística. As representações artísticas buscaram aproximar-se da natureza (do homem e do mundo que o cercava), por isso os artistas adotaram atitudes naturalistas em sua arte.
    A obra de arte deixa de ser apenas uma obra artesanal de um mestre artesão, para ser uma peça valorizada pela genialidade do autor – técnica, criatividade, naturalismo da representação – recebendo, assim, um valor de mercado (de troca) além do valor de uso. Com a prosperidade econômica, desenvolve-se uma admiração, que se acentua cada vez mais a partir do século XVI, pelo trabalho artesanal e artístico, que passam a se separar distinguindo o produto feito para uso e o produto feito para ser contemplado, entre uma peça de vestuário e uma pintura em mural ou tela.
   O fruto do trabalho – do gênio – do artista estava dirigido essencialmente às camadas abastadas da sociedade – burguesia enriquecida, nobreza, alto clero -, devendo mostrar, ostentar, o poder e a riqueza desses que encomendavam, patrocinavam, compravam sua obra. Desta forma, nas obras de arte eram representadas cenas onde o cotidiano dos mecenas – aqueles que encomendavam a obra, que poderia ser tanto um burguês rico, como os Visconti, os Sforza ou os Medicis, um nobre, como o próprio rei Francisco I de França, ou, ainda, um membro do clero, como o papa Julio II –, como uma forma de “propagandear” um estilo de vida, um estilo de pensar, valores, enfim, principalmente da burguesia.  
   Um dos homens que sintetizara, de certa maneira, essas características foi Leonardo da Vinci (1452-1519). Eis um depoimento de um quase contemporâneo de da Vinci, Giorgio Vasari (1511-1574):
  Leonardo da Vinci possuía tais dons que sua celebridade foi mundial, não apenas durante sua vida, mas ainda mais depois de sua morte, e assim continuará por toda a eternidade.    
Estudou todos os ramos da arte. Admirável, inteligente e além disso excelente geômetra, Leonardo não apenas trabalhava em escultura mas também, como arquiteto, desenhou plantas e edifícios inteiros.
Leonardo estava freqüentemente ocupado na preparação de planos para remover montanhas ou perfura-las com túneis de planície a planície. Por meio de guindastes, alavancas e parafusos ele mostrou como levantar ou mover grandes pesos.
Examinava planetas, observava as estrelas, as variações da Lua e o curso do Sol.
Depois dirigiu sua atenção para a anatomia humana, na companhia do Mestre Marcantonio ensinava então em Pávia e escrevia sobre anatomia, um assunto, até então, perdido nas tevas da ignorância. Leonardo ilustrou o livro de Marcantonio com desenhos delineados com pena. Estes eram copiados com o maior cuidado, de corpos dissecados por sua própria mão. Ele esboçava a estrutura, o arranjo e disposição dos ossos. Depois acrescentava os nervos na devida disposição e então os músculos.
(Leonardo da Vinci, pintor e escultor. IN: Vidas de Artistas.)
    O período frutificou ideias, mesmo que contraditórias às vezes. Frutificou uma ânsia de conhecer e aprender entre os homens – e algumas mulheres – que desembocou no século XVII numa verdadeira Revolução Científica. Desenvolvia-se o método científico e as várias correntes de pensamento que deram base ao conhecimento existente hoje.
    Diversos homens ousaram buscar o conhecimento infringindo regras, opondo-se a poderes constituídos e às crenças solidificadas. Ousaram usar de sua liberdade e pagaram o preço por isso.
  Como afirma o professor Nicolau Sevcenko, da USP:
 (...) E, no entanto, a opção era clara: tudo que os renascentistas pretendiam era assumir a condição humana até seus limites, até as últimas consequências. Nem Deus e nem o demônio; todo o desafio consistia em ser absolutamente, radicalmente humano, apenas humano. (...)    
Nós temos no Renascimento um desses momentos particularmente interessantes da História, em que o homem aparece transtornado, atônito, sufocado pelo peso da própria liberdade. Nessas condições podemos tentar fazer uma avaliação desse homem preso na solidão de ser livre e temos uma situação estratégica para verificar a dimensão de sua coragem, de seus desejos e de seus pavores. O Renascimento constitui, por isso, uma das mais fascinantes aventuras intelectuais da humanidade. (...) E, no entanto, esses homens viveram uma experiência soberana de criação e puderam provar o gosto amargo, porém único, de serem livres.
(IN: Renascimento. 16ª ed., São Paulo, Atual Editora, 1994, pp. 32-34.)

REFORMAS RELIGIOSAS

1. Religião e conflitos sociais e políticos
    O mundo está envolvido em crises econômicas e políticas, desencadeadas ora em um continente, ora em outro. Guerras latentes explodem, guerras intermináveis parecem abrandar, mas marcam a vida de todos, direta ou indiretamente. Em muitas dessas guerras existe um componente que vai além de questões políticas e econômicas. Um componente secular de natureza religiosa, étnica e nacionalista. Nos Balcãs com a guerra civil na Bósnia, com os conflitos em Kosovo. No Oriente Médio entre Árabes e Israelenses, entre curdos, turcos e árabes. Na Irlanda do Norte entre católicos e protestantes, remontando ao século XVI. No Brasil, um conflito ideológico na mídia entre evangélicos e católicos, que escondeu a guerra de audiência entre duas redes de televisão, nos anos 1990. Em todos esses casos, há choque de diferentes, de não aceitação do outro como é.
    Pode-se perceber a não aceitação do diferente ao olhar a história das sociedades. Durante o período medieval, aqueles que fossem diferentes em suas maneiras de acreditar em Deus, ou de se portar na sociedade, eram discriminados, perseguidos e podiam perder suas vidas. Ao longo do período que se segue, há exemplos disso não só de natureza religiosa como em relação aos negros, aos asiáticos, aos nativos da América; em relação aos judeus, aos homossexuais, anarquistas, comunistas, etc.
    Interessa, neste momento, enfocar a raiz de alguns conflitos religiosos, que, infelizmente, pontuam nossa época. Interessa enfocar isso no momento em que há uma aproximação entre Católicos e Luteranos, a fim de aparar as arestas e diminuir as diferenças.  
2. As Reformas Religiosas e a Transição para o Capitalismo
    As mudanças trazidas pelo pensamento humanista e tornadas concretas com o Renascimento Cultural, puderam ser sentidas no campo religioso com o questionamento feito por alguns pensadores, como Erasmo de Roterdã (1469-1536), sobre as atitudes do clero católico, sem, contudo, romper com a Igreja Católica.
    No século XVI, surgiram movimentos que questionaram a inadequação das ações do clero diante de tantas mudanças que estavam ocorrendo, deixando de atender aos anseios dos fiéis, além dos abusos desse mesmo clero – venda de indulgências (perdões), de cargos, de objetos sagrados, corrupção e a não observância de várias regras da Igreja a respeito da caridade, da pobreza, do celibato.
    Diversos setores sociais concordavam com as críticas feitas: setores burgueses ambicionavam as terras da Igreja e ansiavam por uma mudança ética em relação às atividades que realizavam (a postura econômica da Igreja diante do comércio – usura, lucro); a nobreza e a realeza estavam ansiosas por limitar a interferência do clero nos assuntos temporais (ligados à política e administração do Estado), assim como ambicionavam também as terras da Igreja; as camadas populares estavam interessadas em ver seus anseios espirituais atendidos já que se sentiam inseguras diante das transformações em curso e a maior parte dos clérigos estava despreparada para dar-lhes respostas confortadoras, como também viram a oportunidade de pretender uma interpretação mais livre da Bíblia. “Nunca o povo europeu manifestou sua religiosidade como nessa época, e, provavelmente por isso mesmo, passou-se a questionar seriamente a necessidade de sacerdotes. A ideia de que cada um poderia ser sacerdote de si mesmo ganhava corpo.”[3] Podemos perceber o descontentamento popular em relação ao clero católico nesta canção já no século XIV[4]:
Vejo o papa seu sagrado compromisso trair, pois enquanto os ricos sua graça ganham sempre, seus favores aos pobres são negados.
Procura reunir a maior riqueza possível,
Obrigando os cristãos a obedecer cegamente, para que ele possa deitar-se entre roupas de ouro...
Nem são melhores os honrados cardeais, que desde a manhã cedo até a noite fechada passam o tempo empenhados em imaginar um modo de enganar a toda gente...
Pois, cultos ou ignorantes, estão sempre dispostos a  fazer comércio de todo sacramento, inclusive da própria missa sagrada...
    As insatisfações populares, por sinal, se expressaram antes do rompimento de Martinho Lutero, monge agostiniano alemão, com a Igreja Católica, entre os séculos XIV e XV, com duas heresias: uma na Inglaterra com John Wycliff (1324-1384), professor da Universidade de Oxford, e outra na Boêmia (atual República Tcheca), com o padre Jan Huss (1369-1415), que morreu na fogueira em 1415. Este expressa um sentimento “nacionalista” boêmio contra o domínio do Império Germânico, que mobilizou as massas populares até sua derrota final em 1434.
    As Reformas Protestantes, iniciadas em 1517 no Império Germânico (Alemanha), se estenderam por outras regiões, atendendo aos interesses específicos lá existentes. Com Lutero, os príncipes alemães tiveram a justificativa para acabar com as interferências eclesiásticas nos assuntos temporais e ter oportunidade de se apossar das terras da Igreja; a burguesia alemã encontrou também a justificativa para acabar com a intransigência da Igreja diante da usura e a transferência de rendas, via impostos, para Roma. Com Calvino, na Suíça, a burguesia encontrou as bases para sua prática econômica em um conjunto de princípios rígidos relativos ao trabalho e à disciplina. Na Inglaterra, com Henrique VIII, a reforma esteve intimamente ligada aos interesses  de centralização do poder, pois proporcionou recursos ao Estado para isso, quando do confisco dos bens eclesiásticos, contando, ainda, com o apoio popular contra o domínio de Roma.
    A Igreja Católica demorou a reagir. Entre 1545 e 1563, ocorreu o Concílio de Trento, que reuniu o alto clero católico para tomar medidas para enfrentar os protestantes e sanear a Igreja, isto é, acabar com os abusos existentes, dando início à Reforma Católica ou Contra-Reforma.  O Concílio de Trento reafirmou os dogmas e condenou as religiões que se formavam: luteranismo, calvinismo, anabatismo, anglicanismo. Além disso, reestruturou o Tribunal do Santo Ofício (a Inquisição), criou os Seminários para preparação do clero, criou o Catecismo para iniciação e preparo dos fiéis na verdadeira fé e instituiu um Índice de Livros Proibidos (o Índex). Ao lado dessas medidas, houve preocupação com as ordens religiosas que trataram de expandir a fé, destacando-se a Companhia de Jesus (Ordem dos Jesuítas) que teve papel importante na expansão da fé nas colônias Ibéricas (Portugal e Espanha), principalmente. O desenvolvimento e expansão do Barroco constituíram-se em um dos instrumentos utilizados pela Igreja Católica contra os protestantes.
    As Reformas Protestantes trouxeram mudanças na ética relativa ao trabalho. O comportamento religioso dos protestantes, especialmente dos calvinistas[5], valorizava as práticas burguesas, antes condenadas pela Igreja Católica. Para os protestantes, o trabalho deveria ser valorizado. O homem deveria trabalhar com seriedade, sem desperdício de energia e de frutos do trabalho, sem ostentação do que se conseguisse, pois assim conseguiria o sucesso e a prosperidade, condenando a ociosidade e o luxo; e mostraria ser predestinado, isto é, ter a graça de ser um dos escolhidos para o “reino dos céus”, a salvação.
    As energias do homem deveriam ser direcionadas para o trabalho, honrando o fato de ser um “eleito” de Deus. “Tempo é Dinheiro”, afirmou Benjamin Franklin, um burguês norte-americano, jornalista e inventor. A mente, o espírito e o corpo deveriam ser disciplinados para servir a Deus, trabalhando e orando sem a reclusão em um mosteiro.
    A finalidade da vida deveria ser o trabalho para afastar impulsos malignos, as tentações. O trabalho passa a ser visto como oração, como forma de dignificar a Deus. Não mais o trabalho como sofrimento, penalizado, mas como algo com que se orgulhar, um sacrifício necessário e louvável com o qual o homem deveria se conformar.
    A burguesia conseguiu impor seu ideal baseado em um sistema próprio de valores, no qual o trabalho se destaca, ao contrário do ideal aristocrático feudal, que valorizava a honra, o ócio e o sangue (a origem pelo nascimento) [6]. 
    Outras consequências precisam ser apontadas: a unidade religiosa existente na Europa é desfeita, criando um clima de intolerância, perseguições e guerras que se estenderam até o século XVII, quando ocorre a maior guerra de religião – Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) -; a educação popular se expande, por causa da necessidade de ler a Bíblia (os protestantes defendiam a livre interpretação) e possibilitou a afirmação dos idiomas (línguas) nacionais; porém, a valorização extrema da Bíblia como a fonte de todo o conhecimento e verdade, significou um certo retrocesso científico, que pode ser percebido na atuação do Tribunal do Santo Ofício e em algumas correntes religiosas radicais formadas a partir das três grandes correntes protestantes (luteranos, calvinistas, anglicanos); mesmo assim, foi possível a pensadores livres desenvolver o que ficou conhecido como Revolução Científica do século XVII.

O ESTADO NACIONAL MODERNO
AS MONARQUIAS CENTRALIZADAS
    As monarquias medievais eram organizações imperfeitas e não possuíam um caráter nacional. Primeiro, porque a identidade entre as pessoas ocorria através do cristianismo: ser cristão identificava um grande número de grupos, de comunidades muito diferentes entre si; quem não fosse cristão (o “outro”) era considerado bárbaro, herege, pagão e, como tal, desqualificado. E as relações sociais ficavam circunscritas às aldeias, às comunidades e às cidades. Os laços mais extensos – entre as várias comunidades, aldeias e cidades dentro de um mesmo reino - eram difíceis de serem estabelecidos.   
  Além disso, a Igreja Católica exercia um poder que interferia no poder dos príncipes e reis. A nobreza feudal mantinha um poder sobre seus domínios, que era equivalente ao poder de um rei sobre seu reino; entre o soberano (rei ou príncipe) e a massa da população havia a nobreza como intermediária mantendo laços de dependência diretos e imediatos tanto com os trabalhadores quanto com outros estratos da população, inclusive da nobreza. As cidades, por sua vez, quando livres, cuidavam de sua autonomia de tal maneira a não aceitarem ingerências de outros lugares, mesmo do rei, principalmente quando representava a cobrança de tributos e a perda de influência sobre a vizinhança da cidade.
   As monarquias nacionais desenvolveram-se a partir do momento em que os reis começaram a impor limites ao poder exercido pela nobreza de seus respectivos reinos. Ao mesmo tempo, e principalmente quando a crise geral dos séculos XIV e XV atingiu a todos, a nobreza ameaçada em suas rendas e em seu poder, sentiu-se forçada a procurar ajuda dos reis para que pudesse conter os trabalhadores em suas terras, domesticados e trabalhando.
    O desenvolvimento dessas monarquias foi muito diversificado no tempo e em seu processo. A monarquia portuguesa centralizou-se já no século XIV, enquanto a francesa, a duras penas, no século XVI.
     Em todos os casos, porém, podem ser indicadas características comuns:
(a) sistema legal – conjunto de leis que serão codificadas - unificado;  
(b) imposição da justiça real que deve se sobrepor à justiça local dos nobres, das comunidades, das cidades;
(c) concentração de poderes nas mãos do rei – poder material (secular) e espiritual, por conta da legitimação do poder real pelo direito divino;
(d) sistema de arrecadação de impostos unificado, visando o sustento de  ...
(e)um exército permanente e mercenário, servindo de instrumento para imposição do poder real e de defesa dos interesses dominantes, e ...
(f)um corpo de funcionários, a burocracia, que deve cuidar da administração do reino em nome do rei;
(g)imposição de um idioma nacional, utilizado nos documentos oficiais;
(h)imposição da lealdade ao rei, primeiramente, fazendo de todos súditos.
    Nesse processo, os reis contaram com o apoio de nobres – seus vassalos diretos e aliados - e de setores da burguesia ligados ao comércio de longa distância com colônias e mercados orientais (burguesia mercantil). Desta, os reis podiam esperar financiamento para o fortalecimento de seu poder. Os reis encontraram resistências de outros setores da burguesia – ligados às corporações de ofício e ao comércio local das cidades autônomas – dos nobres que mantinham seu poder locam e não desejavam perde-lo e da Igreja Católica, ameaçada pelo desejo dos reis em se livrar da interferência temporal nos assuntos temporais, mais ainda com as Reformas Protestantes.

O ESTADO NACIONAL ABSOLUTISTA
   A centralização de poderes nas mãos do rei formou o Estado Nacional: uma outra forma de organização baseada na conciliação de interesses entre setores da burguesia e da nobreza feudal, tendo no rei o elemento centralizador que garantiria esses interesses. Essa conciliação permitiu a constituição de outros mecanismos de controle sobre a massa da população.
  O Estado Nacional transformou-se em Estado Absolutista. Segundo René Remmond[7], (...) Absolutismo não é sinônimo de arbitrariedade (...).  O absolutismo consiste num poder não partilhado, concentrado na pessoa do rei. Seu caráter pessoal é o que os sociólogos políticos chamam hoje de personalização do poder. (...). A natureza, a origem, do poder real passa a ser inquestionável e total. O rei possuía o monopólio do poder de intervir em todos os setores da sociedade. Ao longo dos séculos XVI e XVII, teorias justificavam o poder dos reis como originados de Deus (Teoria do Direito Divino, Jean Bodin e Jacques Bossuet) ou de um Contrato Social (Thomas Hobbes). Na prática, o poder real – ou de qualquer outro tipo de governante – era limitado pelas alianças feitas pelo rei e por sua origem social, a mesma da nobreza.
    Para se manter no poder, no entanto, o rei precisava, além do poder material, uma imagem que pudesse submeter seus súditos aos seus interesses – que não eram só dele – e assegurar respeito. Uma imagem que já existia, revestida de um caráter místico e que prevaleceu nos países católicos: o Rei é a imagem de Deus na Terra, acima do Rei somente Deus. O monarca, desta forma, sobrepunha-se à própria Igreja Católica apesar de precisar dela para legitimar sua coroa.
“Por mares nunca d’antes navegados”[8]
A Expansão Ultramarítima
    A Europa inicia sua expansão. O mar é o extremo que deve ser enfrentado com todos os seus perigos, deve ser explorado e conquistado.
     Em um período de escassez e dificuldades foi necessária a expansão de fronteiras – econômicas, culturais e políticas. A falta de metais preciosos começou a ser sentida já no século XV, visto que as técnicas utilizadas não permitiam a extração de ouro e prata em veios mais profundos. A escassez significava a retração de consumo e pagamentos (salários) mais baixos. Muitos comerciantes sentiam-se prejudicados por estarem impedidos de comercializar diretamente produtos (especiarias) vindos de várias partes do Oriente. O controle exercido por comerciantes italianos, especificamente venezianos e genoveses, que conseguiram estabelecer acordos com os muçulmanos na região do Mediterrâneo Oriental, impedia a concorrência de outros que, também, não possuíam recursos para bancar a empreitada desse comércio, enfrentando os muçulmanos em constante estado de guerra com os cristãos.
   Como a comercialização de especiarias era lucrativa, mesmo com a escassez de ouro e prata, a solução encontrada foi possibilitar a formação de empreendimentos que buscassem alcançar os mercados orientais por outro caminho, outra rota. Tais empreendimentos foram possíveis quando interesses aparentemente divergentes se uniram sob a coordenação de um poder central capaz de mobilizar recursos para isso, o poder real.
  Quando os reis conseguiram se estabelecer como monarcas possuidores de poder de fato e não só de direito, foram viabilizados esses empreendimentos. O pioneirismo português só foi possível quando se estabeleceu uma monarquia centralizada e nacional.
  Outros fatores concorreram, todos necessários e imprescindíveis, para o empreendimento: a posição geográfica possibilitou a intensificação de contatos comerciais entre a burguesia mercantil portuguesa e de outras regiões da Europa, pois as rotas marítimas que ligavam o sul ao norte do continente passavam inevitavelmente por Portugal; a presença dessa burguesia desejosa de conseguir meios para aumentar suas riquezas, assim como mercadores/banqueiros de outras regiões da Europa, concorrentes dos italianos (muitos até mesmo italianos), possibilitou os recursos financeiros para a montagem das expedições; a presença de uma economia voltada também para o mar, com pesca em mar aberto e a caça à baleia, desenvolvendo habilidades náuticas; ao lado disso, procurou-se, desde o século XV, desenvolver novas técnicas voltadas para melhor navegação “por mares nunca d’antes navegados”; a nobreza submetida ao rei, apoiando-o frente as pretensões espanholas de submeter Portugal, permitia ter à disposição pessoas treinadas para a guerra e desejosas de conseguir terras, riquezas e honrarias; o clero interessado em combater o infiel muçulmano e expandir a fé, revestiu as expedições marítimas de um caráter cruzadista.
   Reunindo todas essas características, Portugal pôde empreender viagens de conquista. As expedições se iniciaram em 1415 com a tomada de Ceuta, uma cidade ao norte da África, importante para o comércio na região. A conquista foi um sucesso, mas os muçulmanos acabaram por desviar as rotas das caravanas comerciais para outras cidades. Contudo, o sucesso dessa empresa levou os portugueses a continuar. Já haviam tomado algumas ilhas próximas do continente africano – Açores, Cabo Verde – e o ânimo cruzadista-comercial aumentava.
   Financiados por banqueiros holandeses, italianos (concorrentes de venezianos e genoveses) e judeus, as expedições prosseguiram ao longo da costa africana, estabelecendo entrepostos comerciais e militares (as feitorias) e obtendo resultados lucrativos. Essas viagens, desde sua preparação, foram cercadas de segredos. A espionagem já existia muito intensa. Muitos Reinos em processo de formação de seus Estados Nacionais.  Com a chegada de Vasco da Gama às “Índias” e seu retorno com um carregamento rico em produtos orientais – conseguidos depois de uma batalha com os muçulmanos –, a empresa marítima revelou-se um grande negócio para todos os envolvidos.
O “ACHAMENTO” DA “TERRA BRASILIS”
    O Brasil foi achado. Essa afirmativa parece estranha quando pensamos que há muitos anos refere-se à chegada dos portugueses como um feito de descobrir essas terras. Se levarmos em conta que o significado de “descobrir” é encontrar aquilo que se desconhece a existência, enquanto que o significado de “achar” é encontrar aquilo que se conhece a existência, pode-se classificar a chegada dos portugueses ao Brasil, como um “achamento”. Sabe-se que os portugueses tinham conhecimento da existência de terras por aqui.
      De fato, quando Pedro Álvares Cabral e sua esquadra avistaram o monte, ao qual denominariam Pascoal, já era previsível encontrar terras por esses mares.
Muitos anos antes de Vasco da Gama Ter avistado aves voando ‘muito rijas’ em meio ao oceano, os portugueses estavam convictos de que outras ilhas deveriam existir a oeste dos Açores e da Madeira – onde os ventos, por vezes, faziam aportar troncos com entalhes misteriosos. A questão é que parecia não valer a pena explorá-las. A Índia – com suas especiarias e suas sedas – com certeza ficava na direção oposta.[9]
   Aliás, no imaginário medieval existiam relatos sobre uma ilha a oeste da Irlanda, chamada Hy Brazil, O’Brazil, e ainda Ilha de São Brandão, Ilha de São Brandão do Brazil, representada nos mapas desde o século XIV. A origem do nome dessa ilha é celta, mais precisamente do “galês”, falado na Irlanda e no País de Gales. “O sentido seria ‘Terra dos Bem-afortunados’, ‘Ilha da Felicidade’ ou ‘Terra Prometida’, já que a raiz ‘bres’, em irlandês, significa ‘nobre, sortudo, feliz, encantado’.[10] E de ‘to bless’, em inglês, que significa ‘abençoar’. Desta forma, o Brasil já seria do conhecimento dos portugueses.
   Durante os primeiros anos após 1500, essas terras foram encaradas apenas como um lugar paradisíaco no caminho para as Índias. Nesse período, Portugal construiu um império colonial tendo como base as feitorias nas Índias e África. O Brasil era apenas uma escala. Alguns degredados eram deixados por aqui para que aprendessem a língua dos nativos. Alguns navios aportavam para conseguir a madeira valiosa por durabilidade e pigmento avermelhado usado para tingir tecidos e para escrever. O escambo era praticado onde fosse possível encontrar a árvore e grupos nativos dispostos a cortarem e carregarem-na até os navios. Nesses locais, os portugueses até estabeleceram postos, feitorias, para manter os contatos com os nativos e carrear os navios com a valiosa madeira.
   Quando a posse do Brasil ficou ameaçada pelos Estados Europeus, que não aceitavam a divisão do mundo “a descobrir” entre Portugal e Espanha – Tratado de Tordesilhas, 1494 -, houve maior preocupação em proteger e explorar a “terra brasilis”. Da primeira experiência de exploração, com a extração do pau-brasil, passou-se a necessidade de uma ocupação efetiva que permitisse defender a posse portuguesa e permitir a exploração econômica lucrativa.
  A maneira encontrada para dar conta dos interesses da Coroa e dos investidores foi diferente da que havia sido estabelecida nas Índias, a feitoria, postos mais permanentes e melhor equipados que armazenavam as especiarias e outros produtos. 
   Como as terras eram vastas, foram divididas em lotes e entregues a particulares que se comprometiam em ocupá-las e explora-las em nome do rei – as Capitânias Hereditárias. Nelas, os donatários distribuíram sesmarias [lotes de terra] a quem se dispusesse a vir para o Brasil e produzir com seus próprios recursos. Para que fosse viável a empresa precisou se estabelecer em uma base tripla: a exploração de uma grande de extensão de terras [latifúndio] com um produto só [monocultura], utilizando o trabalho compulsório [escravidão], primeiro dos nativos e depois dos negros vindos da África, e tendo sua produção voltada para o mercado externo. A colonização, portanto, deve ser encarada dentro da política denominada mercantilista, que foi implementada pelo Estado Português, em particular, e por todos os outros Estados que se constituíram nessa época.
O MERCANTILISMO
    As viagens possibilitaram o descobrimento e o achamento de terras que foram incorporadas pelos europeus para a exploração. Conquistadas e colonizadas, possibilitaram a expansão comercial européia, o enriquecimento de burguesias fora da Itália. Alemães, holandeses e italianos envolveram-se na empresa ultramarítima, emprestando grandes quantias para os reis em troca não só da volta do montante emprestado com juros, como de participações nos lucros obtidos nas viagens.
    Esses empreendimentos trouxeram um afluxo muito grande de metais preciosos, modificando as relações comerciais, que passaram a ter como eixo de suas rotas o Oceano Atlântico. As novas terras conquistadas passaram a ser exploradas em função das necessidades econômicas das burguesias européias ampliando as práticas capitalistas ainda mais.
   Exigiu-se uma mudança em relação à economia, maior atenção por parte do Estado ampliando sua ação para além das questões políticas e militares, dos interesses meramente dinásticos das famílias reais. Estabelece-se, assim, uma série de medidas no sentido de defender os interesses comerciais da burguesia mercantil nacional, que apoiara-se na centralização de poderes nas mãos do rei para poder enriquecer e expandir seus negócios, como o rei apoiara-se nela para poder conseguir submeter nobres resistentes em perder poderes.
   Denominamos mercantilismo ao conjunto dessas medidas, variadas segundo os interesses específicos de cada Estado. Porém, podemos perceber algumas características muito comuns a todos os Estados Mercantilistas. A acumulação de riquezas, de capitais, foi uma preocupação de todos eles e o metalismo responde a isso: acumular o máximo possível de metais preciosos, vindos principalmente da América com os saques aos impérios Inca e Asteca feitos pelos espanhóis durante o século XVI e, mais tarde, com a exploração da minas de prata na América do Sul e de ouro no México e no Brasil. Boa parte desses metais serviu para financiar o luxo de nobres ibéricos e a riqueza de outros que não participavam da exploração direta, mas o conseguiam através das empresas de pirataria (corsários ingleses, em sua maioria, que atacavam os comboios espanhóis vindos da América) ou através do pagamento de empréstimos que lhes deviam portugueses e espanhóis.
  Outra medida comum, e necessária, foi o estabelecimento de leis que protegessem a economia nacional estabelecendo taxas alfandegárias (de importação) com a finalidade de evitar a entrada vantajosa de produtos de outros países. Ao mesmo tempo, incentivava-se a produção manufatureira para aumentar os produtos para exportação, estabelecendo uma balança de comércio sempre favorável, isto é, exportar mais do que importar.
   Essas medidas protecionistas só puderam ser efetivadas na medida em que os Estados Mercantilistas conquistaram terras e iniciaram a colonização visando ampliar suas fontes de mercadorias e metais preciosos. Desta forma, estabelece-se um sistema que submete as terras conquistadas a leis para garantir a exclusividade sobre elas. A colônia torna-se exclusividade, monopólio, de sua metrópole, produzindo apenas o que interessa ao mercado europeu e consumindo o que os europeus produzem (manufaturados, equipamentos) e o que comercializam de outros lugares (escravos, por exemplo). Assim, por exemplo, o Brasil que produzia açúcar só o venderia a Portugal e só poderia comprar aquilo de que necessitasse de Portugal.
  Os Estados europeus, ou melhor, os reis concediam privilégios a determinados grupos mercantis para explorar o comércio e/ou a produção de determinados produtos: era a concessão de monopólios.  Conseguiam, desta maneira, os produtos que necessitavam para exportar para outros países evitando importar deles. E podiam aumentar suas exportações, vendendo para suas próprias colônias.
   Ganhava-se dinheiro vendendo caro os produtos comprados a preço baixo das colônias, como vendo caro para essas colônias os produtos comprados na Europa e mesmo no Oriente. A acumulação, portanto, ocorre na circulação de mercadorias e dinheiro. Também podemos chamar a esse conjunto de práticas, de Capitalismo Comercial.









[1] Ver: POLO, Marco – O Livro das Maravilhas. Porto Alegre, L&PM, 3.ª Ed., 1985.  e CALVINO, Ítalo – As Cidades Invisíveis. São Paulo, Cia das Letras, 1990.
[2] SHAKESPEARE, William – Macbeth. Ato I, Cena VII. Rio de Janeiro, Aguilar, 1969, vol. I,  p 488-489, apud BERUTTI, Flávio et alii – História Moderna através de textos.  Textos e documentos 3, 4. ª ed., São Paulo, Ed. Contexto, 1994, p 20-21.
[3] FARIA, Ricardo et alii –História. V1. Belo Horizonte, Ed. Lê, p 46-47.
[4] Citada por HUBERMAN, Leo – História da Riqueza do Homem. 21.ª ed., Rio de Janeiro, 1986, p 80.
[5] Jean Calvin, ou João Calvino (1509/64), reformador francês que foi obrigado a se refugiar em Genebra (Suíça) por causa de suas idéias religiosas, conseguiu controlar a cidade e estabelecer um governo com rígida disciplina dirigida por uma elite eclesiástica protestante; suas idéias radicalizarão o movimento reformista e se expandiram, principalmente, pelo norte da Europa dando origem, por exemplo, aos presbiterianos, puritanos, quakers, entre outros. Ver MOTA, Carlos Guilherme História Moderna e Contemporânea. São Paulo, Ed. Moderna. Ver também a Bibliografia ao final do caderno.
[6] LE GOFF, Jacques - A civilização do Ocidente Medieval. Lisboa, Editorial Estampa, 1983, v1, p 308.
[7] RÉMOND, René - O Antigo Regime e a Revolução.  São Paulo, Cultrix, 1974.
[8] Trecho de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões.
[9] BUENO, Eduardo – A Viagem do Descobrimento: a verdadeira história da expedição de Cabral. Rio de Janeiro, Objetiva, 1998, p 13.
[10] FUNARI, Pedro Paulo – “Brasil”, um nome celta que habitava o imaginário medieval. Caderno de Turismo, Folha de São Paulo, 28/04/1998, p 13.